
ENTREVISTA – BÉATRICE MILLÊTRE
A psicóloga francesa, especialista em ciências cognitivas Béatrice Millêtre transformou em livro estudos sobre a predominância do lado direito do cérebro. O Pequeno guia para pessoas inteligentes que não estão dando certo chega ao Brasil, primeiro país a publicar a obra depois do original na França, para colaborar na adaptação de sujeitos cerebralmente destros na escola, no ambiente social e no interior das corporações. Publicou também os livros Bien vivre son homosexualité; J’éveille mon bebé; e outros três títulos pela Editions Gründ: J’éveille mon bebé 3 à 6 mois; J’éveille mon bebé 6 à 9 mois; J’éveille mon bebé 9 à 12 meses. Béatrice é também membro da Association Française de Thérapies Comportementales et Cognitives, da Association Française des Troubles Anxieux e da Fédération française de psychothérapie; fundou e dirige o Grupo de Francófono de Intercâmbio sobre a Prática das Terapias Cognitivo-comportamentais e participa regularmente de congressos. Na internet, tem o vídeo http://tempsreel.nouvelobs.com/videos/index.php?id_video=2943, no qual é possível conhecer o que a levou a estudar o lado direito do cérebro.
A senhora aponta diversas características e situações que ajudam o leitor a se identificar, ou não, enquanto “pensador global”. No consultório, o diagnóstico é baseado no mesmo tipo de análise? Há algum aparelho capaz de apontar tais características a partir, por exemplo, de ondas cerebrais? O que há de novo no método que a senhora utiliza?
A distinção entre “direitos” e “esquerdos” é feita segundo a base das características funcionais de cada um dos dois hemisférios cerebrais. Basta relacionar essas características para ter a resposta. Efetivamente, em tese, seria possível visualizá-lo por IRM funcional, mas a realização e depuração das imagens é mais complexa.
Sabemos que há, em nível mundial, estudos e propostas para desenvolver o lado direito. Embora esta não seja uma das propostas do seu livro, poderíamos pensar um pouco sobre a validade dessas propostas?
Os estudos dizem respeito às características do sujeito “viso-espacial”.
Sabemos que algumas terapias, alguns métodos e até mesmo workshops têm como objetivo desenvolver o lado direito do cérebro para tornar as pessoas mais criativas. A senhora acredita que tais métodos são realmente eficazes ? No que, de fato, consistem ?
É disso que trata o livro de Dan Pink: “O homem de dois cérebros”, escrito para “esquerdos”. Para ele, o mundo de amanhã será dos “direitos”, e é importante que os “esquerdos” também possam ser eficazes nesse mundo tirando partido das características do hemisfério direito. Eu, de minha parte, acredito que a colaboração entre os “esquerdos” e os “direitos” dá excelentes resultados e que não é realmente necessário ir contra a sua natureza. No entanto, tirar o melhor de si, sim, é importante, assim como aprender a conviver.
Algumas vezes, o lado direito do cérebro foi associado ao sexo feminino. Esta idéia ainda é válida? Há outros aspectos demográficos a serem considerados?
Não tenho estudos precisos sobre essa questão. Parece que se pode também falar de aspectos culturais: os asiáticos tenderiam a ser “direitos”, mas Lucien Israel pode fornecer mais base para falarmos sobre isto.
A senhora chamou atenção para o fato de, apesar das descobertas de Sperry, as escolas não se esforçarem para se adequar a realidade dos cérebros destros, especificamente. Quais tipos de práticas poderiam ou deveriam ser introduzidos na escola em prol dos “direitos”? De que maneira a escola poderia ajudar na não discriminação? Há alguma experiência neste sentido?
É simplesmente a “lei da maioria”, ou a pressão social. Na escola – eu vejo isso diariamente no meu consultório com crianças em fracasso escolar e seus pais ou com estudantes que não conseguem mais acabar seus cursos – bastaria aceitar o fato de que há diferentes maneiras de aprender e de trabalhar, ter consciência delas e permitir que seja assim. Alguns educadores fazem isso espontaneamente.
Em Pequeno Guia, a senhora nos apresenta pacientes que são “destros” e que sofrem de distúrbios psicológicos. Há ligação entre essas duas características, ou seja, pessoas com o lado direito do cérebro mais desenvolvido, e sem compreensão disto, podem desenvolver algum problema?
Claro. A primeira conseqüência é a falta de confiança em si mesmo e nos outros. Com a ajuda de diagnósticos errados feitos por alguns médicos: hiperatividade, ciclotimia, PMD, personalidade limite, por exemplo.
A hiperestesia que caracteriza os “destros” pode ser prejudicial, em algum sentido, para essas pessoas?
Sim, não sentir mais emoção nenhuma, nada, e isolar-se do mundo.