
“Olhos baixos” tem pouco mais de 150 páginas, mas demorou seis anos para ser escrito. Pudera. Como roteirista da Rede Globo desde o início da década de 90, a autora do livro, Maria Helena Nascimento, tem no currículo nove novelas e dois seriados. Já integrou as equipes dos principais autores da emissora, entre eles Gilberto Braga (“Paraíso Tropical” é o terceiro folhetim com o autor), Antonio Calmon e Euclydes Marinho. Maria Helena nasceu no Rio, em 1961, e é filha de uma jornalista e um publicitário. Formou-se em Jornalismo, mas nunca exerceu a profissão.
Você tem mais de dez anos de carreira como roteirista. A palavra é seu meio, a escrita é seu ofício. Lançar-se na literatura era um sonho acalentado há muito tempo?
MH - Muito tempo mesmo. Mas sempre fui muito feliz escrevendo para TV.
Como nasceu Olhos Baixos?
MH - Primeiro, nasceu da necessidade de escrever um romance, uma história de mais fôlego. (eu escrevia poesia antes) Depois... Já não me lembro tão bem, mas acho que era uma história secundária dentro de uma outra, muito maior, mais complicada e mais cheia de personagens, que resultou das minhas primeiras tentativas de escrever o tal romance. Esta história específica foi a que, depois de muito tempo e muitas dúvidas, eu pincei de dentro daquela confusão porque me pareceu a melhor para desenvolver.
Você escreveu o livro durante seis anos. A história precisou desse tempo pra ser maturada?
MH - Precisou. Eu estava sempre trabalhando em outras coisas, não tinha tanto tempo assim para o livro. E eu demorava muito (muito mesmo) para pensar cada parte da história, principalmente as duas primeiras. Eram muitas dúvidas, muitas idas e vindas, muitos brancos, muitos becos sem asída, muitos ataques de insegurança, enfim... Pensar é que foi penoso, escrever foi o menos difícil. O que não quer dizer que tenha sido fácil.
A experiência com novelas e seriados foi fundamental para escrever o livro? Do que você mais tirou proveito e o que teve que desconstruir?
MH - Acho que é fundamental sim. Do que mais tiro proveito: um, da resistência física mesmo que você desenvolve, já que o volume de trabalho, principalmente em novela, é uma loucura, a média por colaborador é de umas sessenta laudas por semana, eu diria. Dois, escrever para TV, pra mim, traz um certo desapego que ajuda muito na hora da crítica. Mil pessoas põem a mão no seu trabalho, dão palpite, você se acostuma rápido a ser criticado, corrigido, sem se sentir pessoalmente atingido por isto. E três, o mais importante: escrever para televisão me ensinou a cortar. Cortar mesmo, sem medo, sem dó nem piedade. Tenho uma imagem para isso: quando você vai escrever, primeiro tece o tecido. Pode ser lindo seu tecido, mas ainda não é uma roupa. Só quando você recorta e costura os pedaços, a roupa aparece. Cortar é fundamental. é o momento em que o texto passa a ser mais importante que você: se é pra ele ficar bonito, você sacrifica aquele trechinho que era tão bonitinho, aquele jogo de palavras que era um achado, mas que, pensando bem, você pode guardar para uma outra ocasião. Para mim, o que faz a beleza aparecer é o corte.
O que precisei abandonar na hora de escrever um livro foi a necessidade, o vício mesmo, de ser um pouco reiterativa, de explicar tudo muito mastigadinho, que é uma característica do texto de novela.
Você sempre trabalhou em equipe. Conceber e escrever toda uma história sozinha foi muito diferente?
MH - Muito. Diferentíssimo e dificílimo. Porque em equipe a gente faz reuniões para criar história. São reuniões maravilhosas, super proveitosas, divertidas, enfim... Mas e sozinha? Sozinha eu acabei desenvolvendo uma maneira de fazer essas reuniões na minha cabeça, fazendo vários papéis e dando várias opiniões. Tenho que confessar que às vezes eu até falava sozinha mesmo para ajudar a organizar as idéias. Tenho uma certa vergonha de contar isso, mas paciência, foi o jeito que encontrei.
A protagonista do livro tem um embate consigo mesma que é próprio do ser humano, não especificamente dela, de uma mulher. Isso faz com o que livro tenha um alcance muito grande entre os leitores em geral. Como você vê isso?
MH - Eu torço muito pra isso ser verdade...
E como tem sido o retorno dos amigos que leram? Você pode destacar algumas observações que chamaram sua atenção?
MH - O retorno tem sido maravilhoso. A cada dia encontro um e-mail que me deixa mais nas nuvens. Uma amiga disse algo como ter tido a sensação de ver a vida de uma pessoa comum numa mistura de microscópio e caleidoscópio e gostei muito da observação dela, porque era o tipo de efeito que eu gostaria de conseguir mesmo. Alguns falam da fragilidade do personagem, que eu não reconheço tanto; muitos do humor, que é fundamental para mim, enfim, tem sido muito bom mesmo. O reconhecimento deles é uma felicidade enorme pra mim.
"Paraíso Tropical" terminou, Olhos Baixos foi lançado... Este é um momento de descanso e comemoração ou você também já está trabalhando em outras histórias?
MH - Estou tentando ficar de repouso. Tenho uma lista enorme de coisas práticas pra resolver, coisas que ficaram pendentes nos últimos meses, consertos em casa, roupa pra levar na costureira, documentos pra tirar, exames pra fazer, vistoria de carro, esse tipo de coisa. Mas estou fazendo uma coisinha só por dia. Mas agora que o livro já foi lançado, me sinto autorizada a começar a pensar em outra história, apesar de não ter nada ainda definido. Só prometo que não vai demorar seis anos pra ficar pronta.